O fim do descartável?
O guarda-roupa de Maria Clara, 23 anos, estudante de arquitetura em São Paulo, conta uma história que se repete entre os jovens: peças únicas, feitas à mão, compradas diretamente de pequenas marcas ou brechós. ‘Antes eu comprava em lojas de fast fashion, mas tudo desbotava rápido e me cansava. Agora, valorizo o processo, a história por trás da roupa’, conta.
Essa mudança de comportamento não é isolada. Segundo um estudo recente da consultoria Bain & Company, o mercado de moda artesanal e independente cresceu 35% nos últimos dois anos, impulsionado pela Geração Z, que prioriza autenticidade e sustentabilidade.
Costureiras e tecelãs no centro do novo luxo
No interior de Minas Gerais, a Cooperativa Fio da Meada reúne 50 artesãs que produzem bordados e tecelagem manual. As peças ganham o mundo com preços que chegam a R$ 3.000, mas a presidente da cooperativa, dona Lurdes, 62 anos, comemora: ‘Nossa renda aumentou e nossas técnicas estão sendo valorizadas’. A procura, diz ela, cresceu 200% desde 2023, com pedidos de marcas como a grife paulistana Meninos de Pinheiros, que lançou uma coleção cápsula em parceria com o grupo.
Especialistas apontam que a ‘moda slow’ não é só uma tendência, mas uma resposta à crise climática e ao trabalho análogo à escravidão na indústria têxtil. ‘O consumidor está mais informado e quer saber quem fez sua roupa, com que material, em que condições’, afirma a pesquisadora de moda da USP, professora Helena Camargo.
Tecnologia a favor da tradição
Além das redes sociais, que aproximam artesãos do público, plataformas como a brasileira Dafne e a espanhola Catawiki (especializada em leilões de moda vintage) têm conectado pequenos produtores a compradores globais. A startup pernambucana Fios do Futuro usa blockchain para certificar a origem dos produtos, dando segurança ao consumidor.
No entanto, ainda há desafios. A falta de formação profissional e a concorrência desleal de produtos industrializados são entraves apontados por especialistas. ‘Precisamos de políticas públicas que protejam o artesanato, além de educação para o consumo consciente’, defende Helena.
Enquanto isso, nas ruas, a moda artesanal já é visível: nas feiras de bairro, nas produções de fashion influencers como a maranhense Tainá Lima (2 milhões de seguidores), que desfila roupas de cooperativas em seus vídeos. ‘É um orgulho usar o trabalho de quem faz com amor’, diz Tainá. O movimento parece apenas começar.
