O novo tabuleiro do varejo
O varejo brasileiro enfrenta um dos maiores desafios de sua história recente. A combinação de juros elevados, inflação persistente e o avanço implacável do comércio eletrônico forçou redes tradicionais a repensar cada aspecto de suas operações. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que as vendas no varejo físico cresceram apenas 1,2% no primeiro semestre de 2026, enquanto o e-commerce avançou 12,5% no mesmo período.
Diante desse cenário, grandes grupos como o Magazine Luiza e a Renner estão investindo pesado em tecnologia para transformar suas lojas em centros de experiência. A palavra de ordem é “omnicanalidade”, mas agora com um toque de inteligência artificial e realidade aumentada.
Inteligência artificial nas prateleiras
A Rede de Supermercados Pão de Açúcar inaugurou, em São Paulo, sua primeira loja 100% autônoma, onde o cliente faz as compras pelo celular e sai sem passar pelo caixa. Sensores e câmeras identificam os produtos no carrinho, e o pagamento é feito automaticamente. A experiência é completa: o cliente pode escanear o código de barras de um produto e ver informações sobre origem, valor nutricional e até sugestões de receitas.
Já a SulAmérica, do setor de saúde, expandiu seu programa de telemedicina para dentro das lojas Americanas, oferecendo consultas rápidas e check-up básico. A parceria inédita busca atrair consumidores que buscam conveniência e cuidado com a saúde em um único lugar.
Experiências imersivas como diferencial
No segmento de moda, a Renner lançou o projeto “Experimente de Outro Jeito”: um espelho mágico em suas lojas de alto tráfego que permite ao cliente visualizar como ficaria em diferentes roupas sem precisar trocar de look. A tecnologia usa realidade aumentada e já responde por 18% das vendas da seção feminina nas lojas piloto.
Outra aposta é o uso de robôs em centros de distribuição. A Cacau Show instalou uma frota de robôs da startup brasileira Movi&Co para agilizar a separação de pedidos online. A empresa registrou aumento de 30% na eficiência e redução de erros de envio.
O consumidor mudou: sustentabilidade e propósito
Pesquisa da consultoria McKinsey aponta que 73% dos consumidores brasileiros consideram práticas sustentáveis “muito importantes” na decisão de compra. Isso levou redes como a Natura a criar coleções exclusivas para suas lojas físicas, com embalagens retornáveis. O programa já evitou a emissão de 2.000 toneladas de CO2 em 2026.
Nesse contexto, até a Amazon, que domina o e-commerce, abriu sua primeira loja física no Brasil, em Curitiba, mesclando o modelo de conveniência tradicional com retirada de produtos comprados online. A aposta é que o “clique e retire” se torne o novo padrão no país.
Desafios e oportunidades
Especialistas alertam que a transformação é cara e exige escala para dar retorno. O fundador da Via, Rivaldo Martins, afirmou em evento recente que “quem não se adaptar, sai do jogo”. Para o professor da Fundação Getulio Vargas, Ricardo Rezende, “o varejo híbrido, que une o melhor dos dois mundos, será o vencedor. O físico precisa ser cada vez mais digital, e o digital, cada vez mais físico”.
Com um mercado que movimenta R$ 3 trilhões ao ano, o varejo brasileiro tem na inovação sua única saída para transformar a crise em oportunidade. As redes que já investem em tecnologia, experiências imersivas e propósito claro estão colhendo resultados acima da média do setor. A hora de mudar é agora.
