No coração de uma era dominada pela inteligência artificial e pela produção em massa, um grupo diverso de artistas está liderando uma revolução silenciosa. Não com faixas ou protestos barulhentos, mas com pincéis, cinzéis e ferramentas digitais que imitam o gesto humano. Eles são os ‘artistas pós-mídia’, um termo cunhado pela crítica Beatriz Rocha para descrever criadores que não se limitam a um único suporte, mas transitam entre o físico e o virtual com uma fluidez surpreendente.
Entre os nomes que se destacam está o coletivo ‘Tinta Fresca’, de São Paulo, que recentemente realizou uma intervenção urbana no Minhocão, mesclando projeções mapeadas com pintura ao vivo. A líder do grupo, Ana Clara Santos, explica: ‘A tecnologia é uma ferramenta, não um fim. Nosso trabalho busca resgatar a imperfeição, a mancha, o erro que torna cada obra única.’ Essa filosofia ecoa em outros cantos do país, como no ateliê de João Mendes, no Rio de Janeiro, que utiliza inteligência artificial generativa apenas como ponto de partida para intervenções manuais.
O fenômeno não se restringe ao Brasil. Na Europa, o movimento ganhou força com a exposição ‘Human Touch’, em Berlim, que reuniu obras de artistas como a francesa Camille Dubois e o japonês Taro Tanaka. Ambos utilizam algoritmos para gerar padrões, mas subvertem a lógica digital ao inserir elementos orgânicos, como tintas feitas de terra e pigmentos naturais. ‘É uma forma de criticar a homogeneização visual promovida pelas grandes plataformas’, afirma Dubois.
Especialistas apontam que essa tendência reflete uma reação ao cansaço digital. ‘As pessoas estão sedadas por imagens perfeitas e repetitivas. O que atrai agora é a falha, a textura, a história por trás do gesto’, avalia o curador Marcelo Almeida. Para ele, o movimento pós-mídia não é um modismo, mas uma resposta necessária à saturação visual imposta pela cultura das telas.
Em termos de mercado, as obras desses artistas têm valorizado. Galerias como a ‘Nova Era’, em Brasília, reportam aumento de 40% na procura por peças que combinam técnicas tradicionais e digitais. ‘O comprador busca algo que conte uma história, que tenha a marca do humano’, diz a galerista Lúcia Reis. Com o avanço da realidade aumentada e das NFTs, a tendência é que essa fusão se torne ainda mais complexa, borrando as fronteiras entre o que é criado pelo homem e pela máquina.
